Prática em arquitetura


Rio de Janeiro Brasil




URBANIZAÇÃO

Ceilândia (QNR06)

-



2018
Ceilândia, Brasília-DF

EQUIPE Arquitetura Juliana Sicuro, Vitor Garcez (Oco) + André Cavendish. Julia Fabbrianni (estagiária). Renders André Cavendish e Rodrigo Bocater




UM BAIRRO-PARQUE PARA CEILÂNDIA

Este edital da CODHAB se configura como uma oportunidade para desenvolver uma proposta de projeto na qual urbanismo, arquitetura e infraestrutura sejam pensadas de forma integrada. Neste sentido, esta proposta opera a partir de duas abordagens complementares: “do território ao bairro” e da “casa à cidade”.


Esta proposta de projeto de urbanismo e arquitetura para a QNR06 em Ceilândia visa a construção de um lugar propício à vida, em sua dimensão individual e coletiva, tendo como premissa fundamental a noção de habitar. Um habitar pensado para além de sua acepção como moradia, mas no sentido da construção do indivíduo a partir da ideia de pertencimento: a cidade, o bairro e a quadra como a própria casa.


A QNR06 está localizada em Ceilândia, cidade caracterizada historicamente por sua dependência (como cidade-satélite) a Brasília, na medida em que começa a ser loteada na década de 1970 (na chamada Campanha de Erradicação de Invasões - CEI) para assentar famílias que se deslocaram para a nova capital brasileira a trabalho. O projeto propõe contribuir para superação da condição de cidade-dormitório que esta cidade estabelece com a região administrativa de Brasília, esta sim dotada de qualidades urbanas e oferta de emprego e lazer.





A área de projeto é um terreno descampado de topografia branda definida por seus limites imediatos com uma rodovia expressa e um núcleo rural a norte, uma zona industrial a sudeste e uma zona habitacional oeste. Ceilândia se caracteriza pela setorização funcional por zonas ordenada segundo uma malha regular espraiada e de baixa densidade demográfica. Suas áreas residenciais possuem poucas áreas livres públicas e não há significativa mistura de usos. Consideramos que essa condição acaba por gerar áreas com pouco dinamismo, segurança e qualidade de vida urbana para seus habitantes e, sendo assim, a proposta para a QNR06 opera na diversidade de usos, tipologias e espacialidades.


Na medida em que o presente projeto deve contemplar tanto o desenho de unidades residenciais quanto o desenho urbano torna-se possível propor relações sensíveis entre o espaço doméstico e o espaço coletivo fazendo com que as ruas sejam ativas e ao mesmo tempo seja preservada a intimidade dos seus moradores.








DO TERRITÓRIO AO BAIRRO: SINGULARIDADE NA PAISAGEM E VAZIO SIGNIFICATIVO


No que diz respeito às características morfológicas da paisagem e das construções de Ceilândia, predominantemente espraiada e indiferenciada, entende-se que o projeto deve criar uma porção de cidade singular a partir de um conjunto construído que seja uma referência visual para a cidade e seus moradores


Neste sentido, a implantação do conjunto desenha uma figura arquitetônica de escala urbana, definida como uma “grande quadra” coincidente com os limites das vias previstas nos documentos técnicos deste Concurso. Os limites externos da grande quadra se fazem por um conjunto de edifícios de uso misto de 4 pavimentos (incluindo o térreo), que transformam essas vias coletoras periféricas em ruas de atividades e cria ruas internas compartilhadas nas quais o pedestre tem prioridade. O miolo da grande quadra é composto de subquadras que chamamos “unidades de vizinhança”, que por sua vez são ocupadas por casas geminadas de 2 pavimentos e edifícios de multifamiliares uso misto. Essa estratégia de transição de escalas por meio da arquitetura tem como objetivo gerar ruas com densidades e espacialidades urbanas distintas, propícias à diferentes tipos de apropriação.




Para além da transição de escalas, a implantação, consolida em seu interior um vazio, pleno de significado e vida urbana: um parque público. O parque é um espaço público estruturador da grande quadra, conforme articula os usos de parque (quadras esportivas, brinquedos, pista de skate, áreas de sombra, entre outros) aos equipamentos públicos (CEI, CEF, CRAS, UBS, PCDF e Mercado Comunitário) e às unidades de vizinhança. Esse espaço livre público é uma grande área de solo permeável responsável por absorver parte da água das chuvas por infiltração direta.


Para além de sua importância local, os equipamentos públicos e o parque alcançam abrangência regional, reforçada pela localização estratégica da QNR06, na borda na área urbana de Ceilândia. Sua condição limítrofe faz com que seja ao mesmo tempo conectada aos principais eixos viários e aos transportes públicos da cidade e também a outros municípios e áreas rurais pela BR070.








DA CASA À CIDADE: HABITAÇÃO INTERMEDIÁRIA E UNIDADES DE VIZINHANÇA  


O elemento primário do parcelamento do solo em Ceilândia é a quadra residencial, que tem como padrão a quadra de 130 por 40 metros dividida em lotes iguais (fundos com fundos) e delimitada por calçadas e caixas de rolamento de mão dupla. A implantação desta malha urbana padrão de forma indiferenciada resulta muitas vias para veículos em detrimento de sistemas de mobilidade ativa. A partir desta leitura, propõe-se um padrão de ocupação que tem como premissa a priorização do pedestre e do ciclista em detrimento dos veículos automotores.





A organização das unidades de vizinhança produz uma hierarquia viária em que vias coletoras externas à grande quadra distribuem ruas compartilhadas de acesso às habitações. Esse sistema hierarquizado favorece o deslocamento não motorizado no interior das unidades de vizinhança e simultaneamente garante o fácil acesso a todas elas por meio de transportes públicos. As duas tipologias habitacionais propostas apresentam dispositivos espaciais que mediam a interação entre vizinhos e definem espaços domésticos híbridos entre o edifício de apartamentos tradicional e a habitação unifamiliar, que chamamos de “habitação intermediária”.






Nos edifícios multifamiliares, as caixas de escada dão acesso a um rol de entrada em cada andar, compartilhado entre dois apartamentos, sendo um de três e outro de dois quartos. Ao mesmo tempo, a ausência de corredores garante o movimento constante nas calçadas de acesso aos edifícios. Além disso, a varanda na face oposta às caixas de escada unidades resguarda a intimidade dos moradores ao mesmo tempo em que são olhos para rua. O acesso direto pela rua associado a esses espaços de transição e interação entre o espaço público e o espaço doméstico conferem qualidades de casa ao edifício.

Nas casas geminadas, a passarela de acesso às unidades superiores emoldura a entrada dos pátios-garagem das unidades inferiores, configurando um conjunto de quatro unidades que compartilham seus acessos. Esse sistema espacial permite organizações internas distintas em cada unidade ao mesmo tempo em que dá integridade visual ao conjunto e reforça o sentido de comunidade nas unidades de vizinhança através de espaços compartilhados. É importante ressaltar que os pátios de dois lotes contíguos podem ser separados ou integrados conforme as necessidades e desejos dos moradores.





Em ambas as tipologias, a membrana entre o público e o privado se faz por telas metálicas que remetem às grades características nas ruas residenciais de Ceilândia. Contudo, acreditamos que esses filtros podem promover fachadas ativas, que contribuam na segurança. Ao mesmo tempo em que permitem certa interação e contato visual, garantem a intimidade dos moradores. Associadas aos pátios, às caixas de escada e às varandas, as grades atuam nessa zona de transição entre o público e o privado, entre a casa e a cidade.
















ATIVIDADES ECONÔMICAS

Procuramos associar o caráter urbano do conjunto residencial à atividade agrícola, entendendo que o incentivo à mesma é de grande potencial para geração de renda e a subsistência dos moradores da região. O mercado proposto no interior do parque somado ao conjunto de pequenos loteamentos agrícolas localizados ao longo de duas das vias lindeiras, próximas ao Setor de Industrias, configuram uma estratégia de promoção da economia local e da vida coletiva enraizada com as condições físicas e ambientais do território.

Além disso, é importante destacar a dimensão produtiva do espaço doméstico. Nesse sentido, as unidades habitacionais possuem espaços internos que são facilmente convertidos em espaços para trabalhar em casa. O quarto mais próximo à fachada da rua nas casas geminadas pode se transformar em atelier de costura; assim como o quarto mais próximo à entrada e de frente para a cozinha pode fazer de um apartamento de três quartos uma pequena confeitaria.


Planta casas geminadas



Planta apartamentos

MÉTODOS E SISTEMAS CONSTRUTIVOS


O sistema básico das unidades de vizinhança pode ser construído com certa autonomia, configurando uma unidade urbana qualificada. Tal fato permite que faz com que o projeto seja construído em etapas. Sob e sobre o parque se organizam as infraestruturas urbanas. Água, esgoto, energia e telecomunicações percorrem linearmente a área pública central se distribuem a cada uma das unidades de vizinhança.

A racionalidade construtiva ajuda a reduzir desperdícios e os sistemas construtivos propostos – estrutura em concreto armado moldado in loco para as unidades multifamiliares e bloco de concreto estrutural para as casas geminadas – são sistemas tradicionais de baixa complexidade simples e podem facilmente envolver o trabalho da população local sendo também fonte de emprego e renda.






Mark