Prática em arquitetura


Rio de Janeiro Brasil




URBANIZAÇÃO

Baixinha de Santo Antônio

-



2014
São Gonçalo do Retiro, Salvador-BA

1º lugarem em concurso nacional
Em parceria com RVBA

ÁREA 330.000 m²
EQUIPE Arquitetura Juliana Sicuro e Vitor Garcez (OCO) + Adriano Bruno, Luis Felipe Vasconcellos e Rodrigo Bocater (RVBA) Consultores André Drummond, Pedro Neves.












O LUGAR GEOGRÁFICO

O recorte territorial em questão apresenta uma geomorfologia determinante para a forma como se desenvolveu sua ocupação ao longo do tempo e para os principais problemas relacionados a áreas de risco e saneamento básico enfrentados atualmente pela população da Baixinha de Santo Antônio. A área compreende duas bacias de drenagem tendo entre o ponto mais alto de cumeeira e o ponto mais baixo de várzea um desnível de 50 metros. Essa pré-condição física seguida da ocupação informal, carente de infraestrutura, faz com que os deslizamentos de terra em áreas de maior declividade em encostas e o alagamento das áreas baixas em ocasiões de chuvas fortes sejam um problema estrutural na abordagem desta proposta.

Ao abordar este problema, o projeto conjuga estratégias de projeto de infraestrutura, paisagem, urbanismo e arquitetura de modo a trazer soluções que trabalhem estas disciplinas de formas integrada. De acordo com essa metodologia, as soluções urbanísticas passam a conter um carácter ecológico na medida em que agregam funções ambientais.



De maneira geral, a cidade de Salvador se caracteriza por um relevo acidentado e cortado por vales profundos. A divisão de sua área central em Cidade Alta e Cidade Baixa exemplifica a presença destes acidentes geográficos na leitura do ambiente urbano. Vendo a cidade de cima, observamos numerosas ocupações em encostas e a aglomeração de casas nas mesmas. Hoje é o terceiro município mais populoso do Brasil, com aproximadamente três milhões de habitantes e com mais de 33% da sua população vivendo em favelas, segundo o IBGE (2011). Isto significa que, em 2010, mais de 882 mil soteropolitanos viviam em favelas.
 
Neste sentido, as soluções propostas para a Baixinha de Santo Antônio podem ser entendidas como um estratégia mais ampla na abordagem de problemas semelhantes em outras comunidades incluídas no programa “Bairro da Gente”. Sua potência de regeneração ambiental é também alargada quando pensada do ponto de vista da cidade como um todo.














CARACTERIZAÇÃO E SETORIZAÇÃO

Localizados nas cumeeiras da topografia os principais eixos viários existentes – ruas São Gonçalo, Baixa de Santo Antônio e Tenente Valmir Alcântara – definem os limites de três setores de características distintas. A definição dos setores corresponde às bacias de drenagem do terreno e às fases de sua expansão.

O Setor 1 corresponde à área das primeiras ocupações na década de 1970, que posteriormente se desenvolve a partir da Rua Baixa de Santo Antônio até as proximidades da atual Av. Luis Eduardo Magalhães. Esta proximidade com a avenida, construída no fim da década de 1980, configura uma ocupação fragmentada nas bordas e com grandes vazios descontínuos. Por ser uma zona limítrofe, caracteriza-se pela vulnerabilidade da construções que ali se instalam, no entanto com grande potencial para o uso público pela facilidade de acesso. Neste sentido, o projeto desenvolve nesta área seu potencial como interface entre a escala metropolitana e a escala local, implantando equipamentos – de dimensões e programa compatíveis com essa escala intermediária – que devem servir a população local e também atrair visitantes; definir e ordenar os acessos e preservar alguns vazios, qualificando-os.



Do fim dos anos 1970 até o início dos anos 1980 a mancha urbana se expande para o Setor 2, duplicando sua área e população. Um vale, localiza-se no centro do recorte de intervenção. Sua ocupação é estruturada pela rua Santo Onofre, uma rua baixa e de carácter local, predominantemente residencial. Entendemos que esse trecho deve desempenhar um importante papel infraestrutural e junto a isso criar um nova centralidade local.

O Setor 3 se apresenta como uma área consolidada no que diz respeito à malha urbana e aos usos que agrega. A Rua São Gonçalo é uma rua carroçável e servida de transporte público (ônibus), apresenta comércio, serviços e residências, assim como equipamentos comunitários (igreja) e educacionais (escola).

A abordagem da área de projeto a partir dos setores é proposta também como estratégia de faseamemento de sua implementação, o que facilita a logística de obra e garante que uma vez executada parte do projeto a nova infraestrutura funcione de forma independente à implementação das demais etapas.








Plano Geral










SETOR 1


Planta baixa  Setor 1






Edifícios residenciais — Setor 1








Edifícios púbicos — Setor 1




NOVAS CENTRALIDADES

A partir desta análise, define-se como principais focos da intervenção as zonas de várzea de cada um dos setores e seus respectivos talvegues (caminho das águas), visando aliar a necessidade de soluções de infraestrutura à criação de área verdes, equipamentos e espaços públicos. As duas áreas de várzea identificadas tornam-se assim centralidades localizadas no centro espacial dos setores 1 e 2. São espaços públicos estruturadores que simultaneamente incentivem a recuperação e preservação do ambiente natural e a vivência coletiva. Tornam-se referenciais na paisagem urbana, contribuindo para a hierarquização dos espaços urbanos e consequentemente para sua legibilidade.



Juntos os dois centros concentram grande parte dos espaços públicos e equipamentos proposto, porém cada uma com características espaciais e funções distintas de acordo com sua inserção na comunidade. A primeira, localizada no setor 1, configura uma área publica livre mais ampla, com espaço para eventos ao ar livre e quadras esportivas, e conta com equipamentos de saúde e educação. Por ser uma área no limite do Baixinha é de fácil acesso para transportes públicos e veículos e com isso pode atender a um publico mais amplo, para além da comunidade. Tendo em vista a proximidade de vias expressas e da futura estação de Metro, faz-se pertinente entender essa centralidade como interface entre a favela, e a cidade de Salvador. Já a centralidade do setor 2 tem carácter local, espaços públicos são predominantes e agregam usos. Um parque na encosta com atividades recreativas, uma praça junto ao Centro Comunitário e um calçada comercial definem o cenário.







Edifícios residenciais — Setor 1







Edifícios púbicos — Setor 1






SETOR 2


Planta baixa — Setor 2




Visão aérea — Setor 2




Edifícios púbicos —   Setor 2


Edifícios residenciais bifamiliares —   Setor 2


A NECESSIDADE DE VAZIOS

O problema das águas (enchentes e deslizamentos) torna necessária a criação de vazios em várzeas e talvegues. As áreas de encosta de talvegues, suscetíveis a deslizamentos, é onde se concentram hoje as ocupações mais precárias e muitas vezes correspondem a vazios, justamente pela dificuldade de construir no local. Nestes locais propomos a relocação das unidades habitacionais existentes para que as encostas passem por recomposição e revegetação, mitigando os riscos à população. Como parte do sistema de infraestrutura de drenagem propomos a criação (ou manutenção) de vazios nas áreas mais baixas da topografia, onde será alocado um sistema de retenção de águas pluviais (para redução do impacto na rede público e em corpos hídricos) e definição de zonas de infiltração.

Em escala metropolitana, esta estratégia será uma uma oportunidade de constituir uma rede de vazios estruturadores dos assim chamados assentamentos subnormais, regenerando áreas verdes e constituindo lugares de concentração da vida pública.

SISTEMA DE ÁREAS LIVRES

A partir das centralidades, cria-se um sistema de áreas livres públicas que abrangem toda a comunidade, articuladas por vias ou escadas existentes requalificadas ou propostas. As áreas livres são simultaneamente núcleos de regeneração da vegetação e do solo natural e pólos da vivência coletiva, exercendo importante papel ambiental e social. Entendemos que a criação de um sentido de coletividade é de extrema importância para que o processos de urbanização seja apropriado pela população local atingindo para seu sucesso e manutenção ao longo do tempo.

TRANSVERSALIDADE

Identificamos um problema de mobilidade para o pedestre devido à topografia acentuada. As vias principais estão situadas no sentido sudoeste-nordeste e no sentido transversal as vielas são em sua maioria escadarias extensas. Diante disso, torna-se pertinente a criação de um eixo transversal que conecte de forma facilitada as duas extremidades da Baixinha. É criada uma passarela de pedestres que, com 180 metros de extensão, conecta pela cota 50 as ruas São Gonçalo e Baixa do Santo Antônio (via Joana D’arc) vencendo um desnível de 25 metros, trecho mais acidentado da área de intervenção.



Passarela — Setor 2



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